Dúvidas (2)
Susana: Passo então agora à enunciação das duas dúvidas que me surgiram no decorrer da leitura de Kant:
Ao descrever, na Estética Transcendental da Crítica da Razão Pura, a iniciativa de Baumgarten em "cientifizar" ou delimitar racionalmente o domínio da estética como «uma esperança malograda que tentou submeter a princípios racionais o juízo do belo», Kant apela à «famosa distinção entre conhecimento e entender estético, ora em sentido transcendental, ora em significação psicológica» (B 35-36). A minha dúvida prende-se então com o seguinte: dado que a faculdade do juízo se trata da faculdade de pensar o particular e, se o significado do mesmo se depreende não por via das operações lógicas, mas da sua disposição psicológica, como tornar possível uma teoria da estética, se por teoria definimos um corpo de princípios gerais que dá conta dos diversos fenómenos particulares? Não seria realmente necessário (como Baumgarten parece sugerir) que o modus operandi do juízo de gosto fosse "auxiliado" pela razão, aquela que facultaria por sua vez os princípios gerais possibilitadores da definição de uma teoria estética (teoria esta que, contraintuitivamente, Kant vem a desenvolver na Crítica da Faculdade de Julgar).
E se o juízo de gosto está completamente dependente do aparatus psicológico do sujeito, como explicar a possibilidade de um consenso de gosto universal relativamente a uma obra de arte?
CJ: O meu obrigado pelas suas duas questões.
A meu ver, a solução do primeiro problema passa por assumir que existem duas ordens do discurso.
Por um lado, (i) o que acontece quando afirmamos que uma paisagem ou uma obra de arte é bela; por outro, (ii) o discurso que teoriza a experiência estética.
No primeiro caso, o juízo apreende o singular e busca a universalidade possível.
Trata-se de um juízo que é simultaneamente subjectivo (porque o que está em causa, segundo Kant, são faculdades mentais - do ânimo, na sua terminologia)...
e universal (porque o jogo da faculdades em presença é comum a todos os seres humanos - por exemplo, na beleza, estão em jogo a imaginação e o entendimento). Mas a universalidade não o transforma em juízo determinante.
No segundo caso, trata-se de elaborar uma teoria filosófica sobre os juízos estéticos de gosto. E aqui a pretensão visa a verdade, podendo-se afirmar que a nossa capacidade de pensar racionalmente e de inferir logicamente os conceitos mantém-se.
Em termos simples, dizer que "tal paisagem é bela" é um juízo reflexivo; mas afirmar que a beleza envolve o jogo entre a imaginação e um conceito indeterminado do entendimento, pretende ser verdadeira. A filosofia, afinal, é, para Kant, o conhecimento racional a partir de conceitos.
Julgo que já respondi à segunda questão, quando analisei a sua primeira interrogação. O juízo é subjectivo - faculdades do ânimo - mas tem uma vocação universal porque as faculdades que estão em jogo são as mesmas. Universal não significa, neste contexto, determinante, mas, antes, que dá azo a uma experiência comunicativa comum em que reflectimos em conjunto sobre os nossos juízos estéticos. Contrariamente ao juízo sobre o que nos é agradável, em que assumimos pacificamente que cada pessoa pode ter o seu gosto particular, quando emitimos um juízo de gosto de beleza fazemo-lo com uma "voz universal" e reflectimos - por vezes, com uma discussão bem viva :D - em conjunto sobre os juízos emitidos.
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