Dúvidas (3)
Maria RG:
Queria então apenas colocar duas questões quanto a Schopenhauer.
Sobre a questão do antepredicativo"Antepredicativo. Existe uma cognição própria à percepção, conhecimento préconceptual, um “sentir” (Gefühl/feeling) prévio ao juízo, assim como ao princípio da razão. No caso da experiência estética, este sentir acontece quando há a contemplação das Ideias. Logo, a verdadeira experiência estética é antepredicativa."
A cognição própria à perceção é esta que é previa ao conhecimento conceptual, e por isso é uma cognição pré-conceptual. Está antes do principio da razão.
No fundo, parece-me que o principio da razão é o principio que faz com que seja possível depois conceptualizar, ajuizar, etc.
Queria saber se o professor sabe se ele também considera a lógica como uma espécie de formato que é ativado quando se já ativou o principio da razão.
(Sendo a lógica como uma "base" sobre a qual o pensamento conceptual se move).
Sobre a questão da arte e da natureza serem (nos respetivos níveis) objetivação da vontade:Vou aqui fazer sobretudo uma interpretação sem saber bem até que ponto estou a ser fiel a Schopenhauer
Se apenas vemos objetos quando aplicamos o principio da razão, poderíamos dizer que a realidade não é (na sua essência) objetivação da vontade, apenas o é segundo o nosso pensamento. mas este realiza quase um trabalho de ilusão.
Assim, o "objeto" artístico é considerado objeto mas não é objeto. Somos sujeitos. E não há conhecimento externo à experiência. O "objeto", como realidade externa à experiência é uma ilusão.
CJ:
1. Como é sublinhado no slide nº15 (Representação e Princípio da Razão), as representações, quando submetidas ao princípio da razão, podem assumir quatro formas distintas: lei da causalidade física; regras de raciocínio matemático; causalidade das nossas acções e, finalmente, a inferência lógica.
O nosso raciocínio assenta precisamente aqui, o que é, aliás, consentâneo com uma das teses defendidas pelo seu mestre Kant, segundo a qual a razão é, entre outras vertentes, a nossa capacidade de inferir.
Quando as representações não estão submetidas ao princípio da razão podem ser apreciadas esteticamente.
Deixamo-nos de preocupar com a articulação conceptual de representações (seja essa articulação física, matemática, psicológica ou lógica) e não estamos preocupados com os interesses práticos e utilitários (os nossos desejos) que, por vezes, associamos a elas.
2.
Em concordância com o "princípio da razão", existe, segundo Schopenhauer, o "princípio de individuação". Novamente, o autor procura ser fiel a Kant. Este diz-nos que os fenómenos individuais (os "objectos", se quisermos) são apreendidos por uma estrutura mental cognitiva - não sei se se lembra do capacete kantiano :) - que realiza a síntese entre as formas a priori da sensibilidade (espaço e tempo) e as categorias (quantidade, qualidade, relação e modalidade).
Schopenhauer simplifica este esquema e diz-nos que nós constituímos representações espácio-temporais e relacionais (causalidade ou relação, segundo as quatro modalidades do princípio da razão). Chama a este processo "intuição intelectual" (algo que Kant certamente não teria gostado de ouvir...
Mas é para ele possível - daí que eu não o veja como o pessimista que ele apreciava ser :) - ter uma captação das representação através de um outro tipo de intuição, a que chama "intuição pura" e que, no ponto que nos interessa, se pode chamar "intuição estética".
Aí vemos as representações para lá do espaço, do tempo e da causalidade (nas suas quatro formas referidas) de um modo desinteressado.
Acedemos, segundo ele, ao plano das Ideias platónicas. Para ele, estas Ideias não são conceitos abstractos, mas antes as representações em si mesmas, sub specie aeternitatis (se me é permitida uma expressão famosa de Espinosa).
A contemplação estética faz isso mesmo: capta intuitivamente uma representação sem a reduzir a um objecto individual.
Segundo ele, o sujeito "perde-se" completamente nessa contemplação pura. Por exemplo, ao lermos um romance apaixonante é como se nos perdêssemos completamente nos meandros da narrativa que estamos a ler (se se preferir, num exemplo anacrónico, ficamos hipnotizados por um filme que estamos a adorar esteticamente).
A música é especial: ao escutarmos uma música acedemos, segundo ele, à realidade em si mesma, ao "irrepresentável" que é a vontade.
E, como diz, no final da sua questão, rompemos com o mundo das ilusões, das aparências, superamos o véu de Maia (Maya era o poder das ilusões segundo os hindus - aliás, a palavra Maya em sânscrito significa isso: "ilusão").
Aqui se pode ver bem a influência os seus três mestres: Kant, Platão e Shankara (filósofo indiano) sobre Schopenhauer.
Queria então apenas colocar duas questões quanto a Schopenhauer.
Sobre a questão do antepredicativo"Antepredicativo. Existe uma cognição própria à percepção, conhecimento préconceptual, um “sentir” (Gefühl/feeling) prévio ao juízo, assim como ao princípio da razão. No caso da experiência estética, este sentir acontece quando há a contemplação das Ideias. Logo, a verdadeira experiência estética é antepredicativa."
A cognição própria à perceção é esta que é previa ao conhecimento conceptual, e por isso é uma cognição pré-conceptual. Está antes do principio da razão.
No fundo, parece-me que o principio da razão é o principio que faz com que seja possível depois conceptualizar, ajuizar, etc.
Queria saber se o professor sabe se ele também considera a lógica como uma espécie de formato que é ativado quando se já ativou o principio da razão.
(Sendo a lógica como uma "base" sobre a qual o pensamento conceptual se move).
Sobre a questão da arte e da natureza serem (nos respetivos níveis) objetivação da vontade:Vou aqui fazer sobretudo uma interpretação sem saber bem até que ponto estou a ser fiel a Schopenhauer
Se apenas vemos objetos quando aplicamos o principio da razão, poderíamos dizer que a realidade não é (na sua essência) objetivação da vontade, apenas o é segundo o nosso pensamento. mas este realiza quase um trabalho de ilusão.
Assim, o "objeto" artístico é considerado objeto mas não é objeto. Somos sujeitos. E não há conhecimento externo à experiência. O "objeto", como realidade externa à experiência é uma ilusão.
CJ:
1. Como é sublinhado no slide nº15 (Representação e Princípio da Razão), as representações, quando submetidas ao princípio da razão, podem assumir quatro formas distintas: lei da causalidade física; regras de raciocínio matemático; causalidade das nossas acções e, finalmente, a inferência lógica.
O nosso raciocínio assenta precisamente aqui, o que é, aliás, consentâneo com uma das teses defendidas pelo seu mestre Kant, segundo a qual a razão é, entre outras vertentes, a nossa capacidade de inferir.
Quando as representações não estão submetidas ao princípio da razão podem ser apreciadas esteticamente.
Deixamo-nos de preocupar com a articulação conceptual de representações (seja essa articulação física, matemática, psicológica ou lógica) e não estamos preocupados com os interesses práticos e utilitários (os nossos desejos) que, por vezes, associamos a elas.
2.
Em concordância com o "princípio da razão", existe, segundo Schopenhauer, o "princípio de individuação". Novamente, o autor procura ser fiel a Kant. Este diz-nos que os fenómenos individuais (os "objectos", se quisermos) são apreendidos por uma estrutura mental cognitiva - não sei se se lembra do capacete kantiano :) - que realiza a síntese entre as formas a priori da sensibilidade (espaço e tempo) e as categorias (quantidade, qualidade, relação e modalidade).
Schopenhauer simplifica este esquema e diz-nos que nós constituímos representações espácio-temporais e relacionais (causalidade ou relação, segundo as quatro modalidades do princípio da razão). Chama a este processo "intuição intelectual" (algo que Kant certamente não teria gostado de ouvir...
Mas é para ele possível - daí que eu não o veja como o pessimista que ele apreciava ser :) - ter uma captação das representação através de um outro tipo de intuição, a que chama "intuição pura" e que, no ponto que nos interessa, se pode chamar "intuição estética".
Aí vemos as representações para lá do espaço, do tempo e da causalidade (nas suas quatro formas referidas) de um modo desinteressado.
Acedemos, segundo ele, ao plano das Ideias platónicas. Para ele, estas Ideias não são conceitos abstractos, mas antes as representações em si mesmas, sub specie aeternitatis (se me é permitida uma expressão famosa de Espinosa).
A contemplação estética faz isso mesmo: capta intuitivamente uma representação sem a reduzir a um objecto individual.
Segundo ele, o sujeito "perde-se" completamente nessa contemplação pura. Por exemplo, ao lermos um romance apaixonante é como se nos perdêssemos completamente nos meandros da narrativa que estamos a ler (se se preferir, num exemplo anacrónico, ficamos hipnotizados por um filme que estamos a adorar esteticamente).
A música é especial: ao escutarmos uma música acedemos, segundo ele, à realidade em si mesma, ao "irrepresentável" que é a vontade.
E, como diz, no final da sua questão, rompemos com o mundo das ilusões, das aparências, superamos o véu de Maia (Maya era o poder das ilusões segundo os hindus - aliás, a palavra Maya em sânscrito significa isso: "ilusão").
Aqui se pode ver bem a influência os seus três mestres: Kant, Platão e Shankara (filósofo indiano) sobre Schopenhauer.
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