Dúvidas (4)
X: 1. A arte evita nossos sofrimentos reprimidos pela dor da vontade ou pela dor que causamos ao lhe reprimir?
CJ: Para Schopenhauer, a vontade, enquanto desejo cego, é fonte de sofrimento para quem a vive. A vontade não é, *em si*, dolorosa. Causa sofrimento a todos os seres, humanos ou não-humanos, porque ela é infinita e insaciável. A arte anula essa espiral do desejo, na medida em que implica um tipo de contemplação desinteressado.
X: 2. Ainda não compreendi bem, a diferença da filosofia dele com a ideia que ele critica de Kant sobre o objeto em si. Não entendi como ele explica ou diferencia das ideias de objeto em si kantiana.
CJ: Schopenhauer coloca uma questão muito simples e óbvia à noção de coisa em si kantiana: como se pode afirmar que é *uma* e que é uma *coisa*? Não critica a distinção entre representação (fenómeno) e coisa em si, mas critica que esta última seja visto como *uma coisa*. Como a vontade é, para ele, do domínio do irrepresentável, quando acedemos à realidade tal como ela é (na visão do autor), apreendemos o irrepresentável. Há alguma linguagem que nos seja capaz de expressar esse irrepresentável? Sem dúvida: a música.
Daí que, para ele, ela seja a arte suprema porque já está para lá da própria representação. O autor ainda tem a ideia clássica (e hegeliana também; veja-se o slide sobre os cinco tipos de arte, para Hegel) de que as artes estão num crescendo e implicam um aperfeiçoamento do nosso conhecimento estético.
X: 3. A coisa em si seria a vontade, certo? E, o que é a razão para ele? E, o conhecimento? Como se relacionam? E, o racional? Posso ter um objeto racional sem ter efeitos de razão?
CJ: A vontade é a coisa em si; a razão é articulação relacional de representações (física, matemática, lógica e moral); existem dois tipos de conhecimento: segundo o princípio de razão (conhecimento racional) e para lá do princípio da razão (conhecimento antepredicativo estético). O racional é inerente ao princípio de razão, na medida em que a razão é, por natureza, relacional.
X: 4. Poderia ver o movimento artístico que o quadro que é de uma pipa e está escrito "Ce n'est pas une pipe", como uma compreensão artística em termos do Schopenhauer?
CJ: O valor estético dessa pintura não estaria, para ele, no jogo conceptual, mas na forma como essa obra tinha sido pintada. Quanto muito diria - estou a especular, obviamente ... - que a mensagem inscrita na pintura mostrava que a arte não é do domínio da imitação.
X: 5. Com relação a objetificacao da vontade, o princípio de individuação não é a própria racionalidade? Então, como a arte seria isenta de razão? Ou ele diferencia razão utilitária e fonte de conhecimento puro da vontade em si?
CJ: O princípio de individuação faz envolver, como Kant tinha sublinhado, o espaço e o tempo. Por sua vez, o espaço e o tempo podem ser objectos de ciência matemática (geometria e aritmética). A arte é isenta de razão porque apreende o que está para lá do "indivíduo" e apreende a sua realidade em si (que ele designa como ideia platónica; ele defende que esta última é muitas vezes confundida com "conceitos", mas isso foi, para ele, um erro de Aristóteles). A célebre cadeira do quadro de Van Gogh não é um "ser individual"...
X: 6. O sujeito puro é a vontade pura, sem a razão ou racionalidade, mas repleta de conhecimento, não?
CJ: É neste ponto que os principais intérpretes de Schopenhauer se têm concentrado ultimamente. Citaria, a título de exemplo, a investigação feita em torno dessa questão por um filósofo da arte, Christopher Janaway (Self and World in Schopenhauer's Philosophy). Na minha interpretação, o sujeito puro é a vontade que se anulou a si mesma, a tal vontade que nada quer, na expressão do filósofo alemão.
X: 7. Como ele relaciona o ato sistematização que compõe a obra de arte com a representação artística?
CJ: Não sei se percebi bem a questão. O artista usa todos os meios para propiciar uma experiência libertadora da vontade. Mas naturalmente sofre com isso... basta pensar na aprendizagem das regras da linguagem musical.
X: 8. A representação via obra de arte diferencia de objeto artístico? Poderíamos pensar que apenas as genialidade artísticas alcançam o auge da representação da vontade em si, sem a racionalidade útil? Ou todo objeto artístico é feito desta isenção racional?
CJ: A representação artística está para lá do *objecto* de arte. Daí o exemplo que há pouco dei da cadeira de Van Gogh. Existem três "cadeiras": a cadeira como objecto individual onde ele certamente se sentou muitas vezes; o objecto pictórico, o que habitualmente chamamos um quadro; finalmente - e o mais importante para a estética - a representação artística criada. Com efeito, para ele, a genialidade artística liberta-se do princípio da razão de uma forma mais sistemática do que o comum dos mortais. Mas não há uma diferença qualitativa entre ambos; apenas quantitativa... se assim não fosse, não teríamos capacidade de apreciar uma pintura ou uma música. Finalmente, a arte está para lá do princípio da razão. Para Schopenhauer, ciência e arte não se devem, de forma alguma, confundir.
Comentários
Enviar um comentário