Dúvidas (5)

Hugo: Queria colocar-lhe uma dúvida acerca da estética e da filosofia da arte de Schopenhauer.

Schopenhauer considera que a arte (a obra do génio) é uma forma de conhecimento das Ideias (entendidas como Ideias Platónicas). Penso que existem duas leituras possíveis desta tese (relacionadas com o entendimento da arte no seu sentido processual [o processo de produção de uma obra de arte] e no seu sentido objetual [a obra de arte propriamente dita]) e estou a ter algumas dificuldades em compreender qual destas é a leitura que Schopenhauer advoga. Por um lado, é expectável que os agentes que criam uma obra de arte venham a conhecer uma Ideia por meio do processo de produção dessa mesma obra, que nem sempre é planeada, e que, por isso, pode vir a revelar, na forma do seu produto (a obra de arte propriamente dita), uma Ideia, conhecida por seu intermédio. Porém, logo em seguida - isto ocorre na página 253 (primeira página) dos excertos do "Mundo como Vontade e como Representação" (e está também no slide 22) - Schopenhauer afirma que a arte "repete Ideias eternas apreendidas por pura contemplação" (ou, na tradução que se encontra no slide 22), "reproduz" Ideias eternas que concebeu por meio da contemplação pura") e que, "conforme o estofo em que é repetido" (ou, no slide, "segundo a matéria que emprega para esta reprodução") virá a assumir uma determinada forma de arte possível (arte plástica, poesia ou música). É o processo de produção de uma obra de arte ou o produto desse processo aquilo por meio do qual conhecemos uma Ideia? Se as Ideias são o objeto da arte (como é defendido por Schopenhauer mais à frente) e se a obra de arte é uma repetição ou reprodução de uma Ideia, então a apreensão dessa Ideia por parte do agente criador tem de anteceder o processo que virá a resultar na sua repetição (que assumirá a forma da obra de arte criada) - penso que esta ideia é suportada pela afirmação de Schopenhauer de que a origem da arte é o conhecimento das Ideias. Contudo, se a origem da arte é o conhecimento das Ideias (se o agente criador tem de ter apreendido uma Ideia antes de produzir a obra de arte por meio da qual essa Ideia virá a ser repetida ou reproduzida, caso em que o conhecimento das Ideias parece anteceder a produção das obras de arte), em que sentido é que a arte é um canal por meio do qual podemos conhecer especialmente essas Ideias? Sê-lo-á para quem aprecie uma obra de arte, acedendo, desse modo, a uma repetição ou reprodução de uma Ideia que terá características particulares (que derivam do modo como essa Ideia é conceptualizada, por assim dizer, por um determinado agente criador), mas, do ponto de vista do artista, cujo labor se foca na repetição ou reprodução dessa Ideia, o seu esforço focar-se-á na reprodução de algo que tem de conhecer à partida, pelo que não parece ser a arte aquilo que lhe confere um conhecimento especial da Ideia que, por seu intermédio, virá a repetir - ou então estou a fazer uma interpretação demasiadamente forte da tese de Schopenhauer ou a falhar na compreensão de algum dos seus pontos essenciais, o que é muito provável.

CJ: Schopenhauer deseja ser um discípulo de Platão e, deste modo, a produção/contemplação artística(s) reproduz (tem algo de similar à mimesis platónica) as ideias que são pensadas como objectivações não-conceptuais da vontade. Daí que cada forma artística obedeça a um princípio diferente. Por exemplo, a arquitectura contempla artisticamente a tensão entre as forças da natureza, a poesia, o ser humano pensante, e a música, a própria vontade em si mesma. Sem dúvida, alguns artistas são capazes de criar/contemplar facetas até então não-observadas das Ideias em questão. A meu ver, criar e contemplar são experiências que, no limite, se fundem. O intérprete/o espectador deve, por sua vez, redescobrir o processo criativo/contemplativo presente numa obra artística. Logo, o que está em causa numa obra de arte é a possibilidade de poder contemplar algo para lá do princípio da razão. Por exemplo, na célebre pintura de Van Gogh de uma cadeira (usando novamente este exemplo anacrónico) o que importa, segundo ele, é captar a ideia de cadeira, para lá tanto dos objectos individuais de cadeira como *da obra pictórica* (o que habitualmente designamos por um quadro). Melhor ainda, como a pintura não-paisagista é a relação de um ser humano específico, poderíamos aceder através das pinturas a essa maravilhosa objectivação da vontade que denominamos por "Van Gogh" e que se expressa através de cadeiras :D A obra pictórica, como obra,  é o objecto material que permite revelar o processo criativo/contemplativo. O objecto artístico produzido é, poder-se-ia dizer, a causa ocasional da contemplação artística.

Hugo: Uma segunda dúvida (em jeito de crítica) prende-se com a afirmação de Schopenhauer, na página 261 dos mesmos excertos, de que "[devemos] contar entre os génios apenas aqueles que realizaram obras de valor permanente e indelével para a humanidade, em todas as épocas." Embora este seja um ponto filosoficamente menos interessante, não percebo em que medida é que não é suficiente para a atribuição do estatuto de genialidade que se exiba uma capacidade de contemplação pura, própria daqueles que Schopenhauer designaria como conhecedores puros. Existirão certamente indivíduos capazes de se tornarem puros sujeitos conhecedores sem que isso os conduza à produção de obras tidas como sendo de maior valor para a humanidade e também indivíduos que produzam obras tidas como sendo de maior valor para a humanidade sem que necessariamente exibam essa capacidade, pelo que não compreendo a motivação de Schopenhauer para esta consideração - estou, claro, a assumir que a sua afirmação não é acerca daqueles a quem normalmente chamamos "génios", mas que está a trabalhar (nesta afirmação) no quadro do seu próprio esquema conceptual, no seio do qual a caraterística da genialidade é entendida como uma capacidade epistémica particular, por assim dizer.

CJ: Schopenhauer distingue o génio do comum dos mortais apenas por ser muito mais sistemático nesse processo criativo/contemplativo. A capacidade estética contemplativa é uma possibilidade de todos os seres humanos.




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