Dúvidas (6)
JA: 1) Não consegui compreender o significado que Schlegel atribui ao termo "ironia" nem o papel que desempenha na sua caracterização da poesia romântica. Poderia elaborar um pouco mais sobre este tópico?
Segundo Hegel (Introdução às Lições de Estética), o conceito de ironia tem a sua raiz na filosofia de Fichte. Este último procura encontrar o princípio incondicional de todo o saber sistemático e descobre-o não tanto na identidade formal A=A, mas antes na identidade da forma e do conteúdo, apenas revelada nesse instante em que o Eu se posiciona a si mesmo, em que afirma "eu sou eu". Só que esta identidade incondicionada não coincide com o que ele designa por "eu empírico". Este último tem o vislumbre de uma identidade incondicionada - uma acção, nunca uma substância - que o constitui em todos os actos da sua vida. Este eu empírico é uma síntese de actividade, mas, também de passividade. Com efeito, a nossa personalidade está longe de ser um acto puro. Logo, o "eu empírico" esforça-se para anular tudo o que é passivo para ascender não só intelectualmente, mas, também, moralmente a esse mesmo princípio. Há um esforço *infinito* por cada eu empírico de realizar nos seus actos pessoais e colectivos esse princípio de identidade que lhe escapa sempre.
Friedrich Schlegel parte daqui: se este esforço é infinito então qualquer forma racional sistemática é vã - Fichte certamente detestaria este corolário - e o ser humano deve reconhecer a sua finitude e a sua ânsia pela infinitude. Como dirá outro romântico, Friedrich von Hardenberg (Novalis), procuramos o incondicionado por todo o lado, mas só encontramos o condicionado... Não se nega de forma alguma o que se poderá designar por infinito, mas o que nos fica é o "fragmento", a "ruína". Schlegel aprofunda esta questão em termos metafísicos e artísticos: cada forma de vida é uma "forma" criada e que será destruída. O mesmo acontece na criação poética ou artística: cada criação é apenas uma forma que não é auto-subsistente, porque a única coisa auto-suficiente é esse infinito que nos escapa e pelo qual ansiamos. Logo, o artista deve assumir este "jogo" de criação, recriação e destruição, este paradoxo inerente a si e à poesia. O "sujeito" pode assumir-se como qualquer "outro" e recriar-se infinitamente. Assim sendo, tudo deve ser observado com ironia, visto que não há nenhuma forma condicionada/criada que seja eterna. Só o pensamento classificado como artificial - e nada romântico - pode pretender o contrário. Ora, não é difícil de percepcionar em dois autores posteriores, Kierkegaard e Pessoa, - dois autores que não são românticos - a apropriação desta ideia, sobretudo no jogo da heteronímia. Quando Pessoa diz, "o poeta é um mentiroso", é, para mim, evidente a influência do Romantismo alemão e do seu conceito artístico de ironia.
Segundo Hegel (Introdução às Lições de Estética), o conceito de ironia tem a sua raiz na filosofia de Fichte. Este último procura encontrar o princípio incondicional de todo o saber sistemático e descobre-o não tanto na identidade formal A=A, mas antes na identidade da forma e do conteúdo, apenas revelada nesse instante em que o Eu se posiciona a si mesmo, em que afirma "eu sou eu". Só que esta identidade incondicionada não coincide com o que ele designa por "eu empírico". Este último tem o vislumbre de uma identidade incondicionada - uma acção, nunca uma substância - que o constitui em todos os actos da sua vida. Este eu empírico é uma síntese de actividade, mas, também de passividade. Com efeito, a nossa personalidade está longe de ser um acto puro. Logo, o "eu empírico" esforça-se para anular tudo o que é passivo para ascender não só intelectualmente, mas, também, moralmente a esse mesmo princípio. Há um esforço *infinito* por cada eu empírico de realizar nos seus actos pessoais e colectivos esse princípio de identidade que lhe escapa sempre.
Friedrich Schlegel parte daqui: se este esforço é infinito então qualquer forma racional sistemática é vã - Fichte certamente detestaria este corolário - e o ser humano deve reconhecer a sua finitude e a sua ânsia pela infinitude. Como dirá outro romântico, Friedrich von Hardenberg (Novalis), procuramos o incondicionado por todo o lado, mas só encontramos o condicionado... Não se nega de forma alguma o que se poderá designar por infinito, mas o que nos fica é o "fragmento", a "ruína". Schlegel aprofunda esta questão em termos metafísicos e artísticos: cada forma de vida é uma "forma" criada e que será destruída. O mesmo acontece na criação poética ou artística: cada criação é apenas uma forma que não é auto-subsistente, porque a única coisa auto-suficiente é esse infinito que nos escapa e pelo qual ansiamos. Logo, o artista deve assumir este "jogo" de criação, recriação e destruição, este paradoxo inerente a si e à poesia. O "sujeito" pode assumir-se como qualquer "outro" e recriar-se infinitamente. Assim sendo, tudo deve ser observado com ironia, visto que não há nenhuma forma condicionada/criada que seja eterna. Só o pensamento classificado como artificial - e nada romântico - pode pretender o contrário. Ora, não é difícil de percepcionar em dois autores posteriores, Kierkegaard e Pessoa, - dois autores que não são românticos - a apropriação desta ideia, sobretudo no jogo da heteronímia. Quando Pessoa diz, "o poeta é um mentiroso", é, para mim, evidente a influência do Romantismo alemão e do seu conceito artístico de ironia.
JA: 2) Também não compreendi em que medida, para Schlegel, o género poético romântico é infinito. Terá algo a ver com a filosofia de Schelling, para quem a verdadeira arte une o finito, o material, o condicionado com o infinito, o ideal, o incondicionado? Quando Schelling fala de um finito e de um infinito dentro de nós, não consigo deixar de o ler mais ou menos em linha com Kant, para quem temos dentro de nós tanto representações do infinito e incondicionado - as ideias da razão - como do finito e condicionado - os fenómenos da natureza e os conceitos que os usamos para conhecer, entre os quais as categorias a priori do entendimento. Posso, naturalmente, estar errado.
Não está errado. É por essa razão que Schelling é o filósofo romântico que nunca se divorciou totalmente do idealismo filosófico (o idealismo absoluto, entenda-se). Como diz Hegel, na Introdução que referi, tanto Schiller como Schelling, souberam sempre preservar a identidade do infinito e do finito. E faz-lhe neste texto um rasgado - esperemos que não irónico :D - elogio. Schlegel tem outra sensibilidade derivada da sua visão teórica. Nós só apreendemos o infinito nessa recriação incessante, paradoxal sem dúvida, de auto-criação e auto-destruição. O infinito *em si mesmo* escapa-nos sempre e, como tal, devemos encontrá-lo neste *poder* poético de recriação incessante. Schelling transcende, no entanto, o idealismo que ele próprio construiu quando era jovem, na medida em que, no limite, para o seu pensamento há sempre algo que escapa à racionalidade e à sistematicidade, a saber, a própria vida.
JA: 3) Schopenhauer inclui tanto a vontade como as ideias - tal como ele as entende - no conjunto das realidades em si mesmas? Ou serão as ideias apenas representações dessa única realidade em si mesma que é a vontade, só que de algum modo mais adequadas do que as representações submetidas ao princípio de razão?
As ideias são objectivações, i.e. representações da vontade. Ele dá vários exemplos, as "forças da natureza" (que a física pressupõe, mas nunca esclarece), a vitalidade das "espécies naturais", o "carácter inteligível" de cada pessoa. A arte contempla essas objectivações até chegar à vontade em si mesma. Daí o crescendo da contemplação artística até chegar à representação que se auto-destrói: a música. Essa, sim, espelho perfeito da vontade.
JA: 4) Existe alguma influência de Schopenhauer sobre Clive Bell quando este último diz que a verdadeira arte nos dá acesso à realidade em si mesma, pois desliga um objeto das finalidades que possa ter para nós?
Sem dúvida. Warburton assinala essa semelhança quando fala de Bell na sua obra, The Art Question. O crítico de arte inglês (Bell) vê a arte como um modo de intuir a realidade em si. Refere mesmo que a arte nos dá acesso à coisa em si (para lá da utilidade e do conhecimento que possamos ter dessa "coisa"). Também é interessante a similitude com a visão que Bergson tem da arte (semelhança assinalada na apresentação).
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