Dúvidas (7)

X: 1. Podemos dizer que os quadros se diferenciam em sua experiência estética, o segundo teria uma configuração menos objetiva, com linhas menos delimitadas e pinceladas mais leves? Apesar das cores serem mais escuras e darem um glamour maior aos personagens no quadro, o outro é mais leve...?

CJ: Estamos perante duas obras-primas da pintura produzidas na mesma época, por dois pintores holandeses, e que abordam o mesmo tema. No entanto, apesar da primeira revelar uma técnica admirável (cf. os pormenores das roupas), a segunda obra (A Ronda Nocturna) é habitualmente considerada como tendo uma mais-valia estética. A prova disso é que ambos os quadros estão na mesma sala do museu de Amsterdão (Rijksmuseum), ocupando a Ronda Nocturna o centro da mesma. Julgo que razão se prende com a forma (configuração) dos diferentes elementos nas duas pinturas. A primeira obra é muito rígida, quase nos transmitindo a ideia de que as pessoas representadas estão a pousar para o pintor. A segunda é plena de vida e a sua configuração circular, englobante, permite-nos explicar a razão pela qual esta pintura de Rembrandt é considerada uma das obras pictóricas mais geniais alguma vez produzidas. Mas o tema é o mesmo... logo, o que sobressai como diferença é a forma. Assim, poder-se-á dizer que, no segundo quadro, a forma é mais significante.

X: 2. Os prazeres e o gozo dos objetos não poderiam ser aproximados pela ideia de vontade e desejo de Schopenhauer?

CJ: Refere-se naturalmente ao texto de Moore que constitui a divisa de uma geração. Os prazeres das relações humanas (amizade) e o gozo do objectos (sentimentos de prazer estéticos) - em particular, os estados de consciência associados - constituem os únicos valores intrínsecos na vida humana. Aqui a proximidade com Schopenhauer parece-me pequena a não ser em realçar o valor da arte. Onde Bell se aproxima de Schopenhauer é na sua hipótese metafísica. 

X: 3. O cubismo não poderia se encaixar como uma arte no sentido de Cliver Bell? Ou mesmo aquela fase azulada de Picasso? Penso isso, pois valorizam a forma e a coloração, não?

CJ: Certamente. As ideias de Bell são o pano de fundo teórico de uma geração que habitualmente etiquetada como modernista.

X: 4. A ideia de emoção estética ficou bem confusa, pois primeiro coloca que não podemos ter esta através da apreciação da natureza, que dependeria de uma obra de arte, mas ele não quer dividir nestas classes obra de arte e arte. Depois, quando diz da criação artística, que não se defini pela representação, mas como significante estética, depois diz da experiência estética que podemos ter na apreciação da paisagem. E, que o artista tira suas ideias para suas obras destas. E, onde seria a diferença entre o artista e o criador de entretenimento? Neste sentido vejo uma elitização das artes, mas ele diz que todos apreciaram, sem contar que tira toda erudição da história - estudo mais aprofundado das obras - para uma apreciação artística. Por outro lado, arte enquanto entretenimento retira desta classe, seriam apenas divertimento, sim?

CJ: São colocadas tantas questões aqui... Para Bell, uma obra de arte tem valor porque é *artística*, i.e. porque promove uma emoção especial, específica à arte, a que chama de *emoção estética* e que deriva do modo *significante* como a obra é sentida por nós (artistas ou não). O criador pode ter essa emoção em relação a toda a realidade; o comum dos mortais precisa da mediação da arte para obter esse tipo de emoção. Para Bell, se uma obra de arte foi criada para suscitar outro tipo de emoções, perde valor artístico. No entanto, ele não é tão rígido como o contemporâneo dele, R.G. Collingwood que considera que a genuína arte nunca poderá ser a do entretenimento nem do artesanato.

X: 5. Os interesses humanos x racionalidade de Schopenhauer? Seria tipo vontade de Schopenhauer que formam as artes, para Bell seria o que são negados nas apreciações, isso?

CJ: Acho que aqui a similitude já é grande os dois, pois ambos parecem apontar para a ideia de uma contemplação pura e desinteressada.

X: 6. Uma distração agradável a um não pode transmitir sensações e informações a outras? Por exemplo, Paddington Station, transmitiu-me muitas informações...Ele mesmo diz da questão de gosto pessoal, logo como seria a obra definida?

CJ: Para Bell, apesar de Paddington Station ser uma obra muito popular na época, trata-se, para ele, de uma má obra de arte. Pelo menos, podemos dizer que a finalidade da pintura era descrever situações reais que as pessoas em Londres viviam. Quase como e fosse uma reportagem visual jornalística...

X: 7. Mas, se a arte transmite informação, por que ela não nos faria pensar? O feio não nos trás emoções, sensações estéticas? Apenas o belo? Pois, por mais circulante que vira a definição de emoção estética de Bell, não seria qualquer emoção? Não diz, emoções belas, levianas...

CJ: Para ele - e neste ponto, como em muitos, aproxima-se muito de Kant - a beleza e a fealdade natural não têm nada a ver com a beleza artística. O tema pode ser horrível (dei vários exemplo) e, no entanto, sentirmos a enorme beleza artística da obra.

X: 8. Seria algo como a cor azul e a sensação do azulado, certo?

CJ: Julgo que se refere à minha pergunta sobre o denominador mínimo comum de uma pintura de Hals e de Mondrian? Julgo que a resposta certa seria uma certa configuração de linhas e de cores.

X: 9. Como a tradução de poesia, literatura, música manteriam a informação e as emoções estéticas? Pois muitas vezes, a poesia acaba por perder o formato, pois as palavras perdem o sentido ou a tonalidade, difícil mediar ambos, não?

CJ: Mesmo quando ainda não percebemos bem  o sentido de um poema, já o conseguimos apreciar; por sua vez, em face de um mesmo sentido várias configurações podem ser criadas, umas significantes, outras nem por isso...

X: 10. Só os artistas conseguem transmitir o que sentem? Onde se diferenciam os artistas e os não-artistas? Só para o artista a beleza material é significante?

CJ: Todas as pessoas conseguem expressar as suas emoções, mas na maior parte dos casos essas emoções referem-se aos problemas da sua vida. Os artistas, para Bell, conseguem expressar as emoções que sentiram perante a forma significante já não das suas obras, mas da própria realidade. Poder-se-á dizer quem quer conseguir captar a forma significante da realidade terá uma sensibilidade de artista. Como dizia o pintor Elstir ao narrador - refiro-me ao romance modernista de Proust, Em Busca do Tempo Perdido - quem estiver habituado a pintar verá tudo à sua volta como uma pintura. É essa a "hipótese metafísica" de Bell.

X: 11. Forma pura não é objeto em si? Assim, como a sensação estética não é a mente pura - sem racionalidade?

CJ: A forma é a configuração que é distinta da representação pois esta é a figuração. Logo, trata-se do modo como o "objecto" aparece. A proximidade com ideal fenomenológico é grande, na medida em que se pede igualmente uma suspensão dos nossos juízos naturalistas e psicológicos de modo a captar a forma como os fenómenos aparecem. Curiosamente, Husserl diz-nos que essa suspensão nos faz aproximar das "coisas mesmas". 

X: 12. Gostei muito da ideia de Bergson a última parte "(...) tudo o que nos mascara a realidade, para nos pôr face-a-face com a própria realidade."

CJ: É essa, no limite, a finalidade da arte para Clive Bell.

X: 13. Por fim, Bell não teria que criar uma teoria de moral?

CJ: Ele tem um capítulo na obra em causa, Art, dedicada às questões morais. Mas o modelo ético privilegiado é explicitamente reconhecido como sendo o de G.E. Moore nos Principia Ethica.  

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