Dúvidas (9)
Pedro: de que forma se pode relacionar a “Vontade” de Schopenhauer com a “Vontade de potência” de Nietzche, uma vez que para Schopenhauer a vontade deve ser negada, e para Nietzsche a vontade de poder consiste na absoluta afirmação, no caminho para o eterno retorno?
CJ: Nietzsche foi durante a sua juventude discípulo de Schopenhauer. A sua obra sobre o Nascimento da Tragédia - provavelmente a sua obra mais lida e discutida - é claramente marcada pela influência do seu mestre. Com efeito, esta obra estabelece a necessidade de uma articulação entre aquilo que Nietzsche chama de "dionisíaco" e "apolíneo" para se poder entender a tragédia como forma de arte. Ora, o "dionisíaco" é a reinterpretação nietzschiana do "mundo como vontade" e o "apolíneo" traduz o "mundo como representação". No entanto, como é sabido, Nietzsche rompe com o pensamento schopenhauriano porque considera que este último está eivado de um niilismo negativo. A vontade que nada quer é, para Nietzsche, uma vontade que quer o nada e, como tal, a morte. Para evitar este niilismo negativo propõe um niilismo positivo, criador, assente na ideia de vontade de poder. Para esta última, a eterna repetição das coisas - nada de novo sob o sol, como diz o texto bíblico - não deve ser vista como uma maldição, mas como a oportunidade de assumir com alegria o nosso destino, por mais trágico que ele seja.
Pedro: Quanto à atitude desinteressada. Não consigo concordar com esta ideia do “desinteresse”. Refere Stolnitz (no seguimento de Shaftesbury e Kant): «[desinteresse:] significa que não olhamos para o objecto preocupados com qualquer fim ulterior para que possa servir. Não estamos a
tentar usar ou manipular o objecto. Não há outro fim a dirigir a experiência, além do fim que é ter a experiência. O nosso interesse repousa tão-só no objecto» (49). Ora, apesar de perceber o que o autor quer dizer, parece-me – talvez por insensatez ou ignorância da minha parte – que a sua
afirmação não faz sentido. Julgo que não há qualquer desinteresse na atitude estética, mas que, muito pelo contrário, é ela a mais interessada das atitudes. O objecto artístico não é apenas “interessente”; a minha atitude em relação a ele é a de maior interesse. Eu tenho uma atitude de interesse para com o próprio objecto. O objecto é o fim em si mesmo. Ele tem um propósito: o propósito de ser visto/contemplado em si mesmo. Quando Stolnitz diz: «o nosso interesse repousa tão-só no objecto» (49), o advérbio ‘tão-só’ é aí colocado (parece-me que – e desculpe-me a ousadia – desacertadamente) pela pena do autor. Quero com isto dizer que não pode haver aí um ‘tão-só’, mas, sim, um ‘inteiramente’, um ‘absolutamente’. Dever-se-ia dizer: «o nosso interesse repousa INTEIRAMENTE no objecto». Devolvendo a palavra a Stolnitz: «‘desinteressadas’ é muito distinto de serem ‘não-interessadas’» (50). Porém, ou muito me engano, ou em língua portuguesa, pelo menos, estabelece-se nitidamente entre ‘desinteressadas’ e ‘não-interessadas’ uma relação de sinonímia: «Desinteressado: 1. Que perdeu o gosto, o amor ou o entusiasmo por alguém ou por alguma coisa; 2. Que denota falta de empenho, de interesse; que não tem interesse… etc.». Será
que no original, os termos usados não têm uma feliz equivalência em português, ou a imprecisão não é, de todo, do tradutor mas do autor? Assim, se for esse o caso, parece que o ‘desinteresse’ em Stolnitz (ou em Kant) quer, na verdade, dizer ‘interesse absoluto’ (tal como a ‘repetição’ em Deleuze significa, afinal, ‘diferença’, tal como ‘eterno retorno’ em Nietzsche significa, afinal, ‘selecção, diferença, afirmação do devir’, ou seja, o exacto contrário do que significam no seu uso corrente). Diz Stolnitz: «Não estamos a tentar usar ou manipular o objecto. Não há outro fim a dirigir a experiência, além do fim que é ter a experiência». Ora, se o autor pretende afirmar que o desinteresse se prende com a não-utilidade, pergunto: quem pode afirmar que a contemplação estética não é útil? E, recorrendo a um exemplo do próprio Stolnitz: «É apenas a utilidade-caneta-para-escrever da caneta, e não a sua cor ou forma características, que me interessa» (47). Pois bem, aí, apesar de eu ter uma atitude interessada para com o objecto escriturário, não estou interessado
na caneta-objecto-em-si, mas TÃO-SÓ na caneta-para-escrever; logo, e,
precisamente, ao contrário do que quer fazer parecer Stolnitz, a minha atitude para com a caneta-objecto-em-si é de desinteresse e há, aí, portanto, nesse sentido, uma atitude desinteressada: qualquer caneta me serviria. Inversamente, se a mesma caneta fosse exposta num museu, por um Duchamp, por exemplo, a minha atitude para com a caneta-para-escrever seria de completo desinteresse e, contudo, a minha atitude para com a caneta-objecto-artístico-em-si seria de absoluto interesse (este exemplo talvez não seja o melhor, já que os problemas da arte conceptual nos
levariam a interrogações mais complexas, mas fiquemo-nos pela caneta-enquanto-caneta e ignoremo-las aqui). Ou seja, não se trata de haver desinteresse num caso e interesse no outro – não se trata, de todo, de tentar inverter a proposição do autor (numa formulação do género: «atitude
desinteressada seria olhar para a ‘Fonte’ e ver, apenas, um urinol de pernas para o ar») –, mas de haver interesse e desinteresse em ambos os casos, sendo que o interesse muda o seu ‘objecto’ mediante a situação: ora se dirigindo para a caneta-em-si, ora para a caneta-para-escrever. Mais: a
atitude estética é a mais interessada atitude, já que, no museu, eu dirijo uma atitude interessada, como nunca antes, para a própria caneta. Não tem ela utilidade? Permita-me: parece-me que não tem ela outra coisa que não seja utilidade: uma “utilidade estética” (ou será esta expressão uma
aberração conceptual?). Nunca aquela caneta, e apenas aquela, na sua singularidade, foi tão útil ao meu interesse, foi tão útil à minha atitude estética, foi tão útil à minha sensibilidade, foi tão útil… Stolnitz: «O nosso interesse repousa tão-só no objecto, de modo que ele não é considerado um sinal de um acontecimento futuro». Creio sinceramente que Stolnitz (Shaftesbury ou Kant) não teria escrito sobre a “atitude desinteressada”, se não se tivesse demorado na contemplação estética
(interessada, absolutamente interessada) da arte de então. Não foi ela inteiramente útil à sua produção textual posterior? É possível separar uma coisa da outra, mesmo que no exacto momento da contemplação estética não se estivesse a pensar nas formulações teóricas futuras? Parece-me que não. Mesmo que eu contemple um objecto pelo que ele é em si, sem, digamos, “segundas intenções”, ele é alvo de todo o interesse, é, aliás, alvo de uma “primeira intenção” e, portanto, mais interessada. Eterno círculo. Trata-se, aqui, talvez, mais precisamente, de um meta-interesse, de um
interesse no próprio interesse que a contemplação estética proporciona.
CJ: A categoria do "desinteresse" é inegavelmente a mais central na teoria estética. Como diz, está presente em Shaftesbury, em Kant, mas, também em Schopenhauer, Clive Bell, Stolnitz, e tantos outros. Só que tem significados diferenciados consoante os autores considerados. O próprio Stolnitz tem um artigo sobre esta questão que, se eu tiver possibilidade, colocarei neste blogue para vocês lerem. Num dos slides da apresentação, citado aliás na sua questão, o slide 13, Stolnitz acrescenta algo ao que referiu. Vou pôr a citação em inglês: "It should, then be clear that being 'disinterested' is very far from being 'un-interested.' Rather, as all of us know, we can become intensely absorbed in a book or a moving picture, so that we become more 'interested' than we usually are in the course of our 'practical' activity." [sublinhado meu](35-36). Logo, há um "interesse" associado à experiência estética que é muito maior do que o interesse usual pelos objectos da nossa vida prática. E esse interesse deriva do facto de querermos ter aquela experiência por ela mesma, independentemente das consequências futuras ou ulteriores na nossa vida (como, por ex. usar a experiência estética para potenciar a nossa sensibilidade). Como vimos numa das aulas presenciais, o "desinteresse" significa assumir o valor intrínseco de algo, i.e. não ser realizado tendo em visto outras finalidades (mesmo que elas venham a ocorrer).
Vou fazer uma analogia com as cores. Vamos imaginar que se gosta de um certo tipo de vermelho. Sabemos que essa cor na natureza habitualmente significa perigo e risco. No entanto, apesar de ela me alertar para o perigo, eu posso estar apenas interessado em apreciá-la *qualitativamente*. A experiência daquela cor é-me suficiente, estou totalmente interessado nela que não tenho nenhum outro interesse. Mesmo que estes outros interesses ocorram, eles são-me irrelevantes.
Convém sublinhar dois pontos importantes: (1) Stolnitz não transforma a atitude estética no critério de identificação de uma obra de arte. Está apenas interessado em descrever o que é a atitude estética, tendo mais tarde sustentado uma teoria plural na análise das diferentes obras de arte; (2) nem todas as teorias de arte aceitam o critério estético do "desinteresse" como é o caso das teorias institucionais da arte, das teorias hermenêuticas, e da visão peculiar de Arnold Berleant sobre a estética da paisagem.
Pedro: O que me leva a uma outra questão: pode haver alguma coisa como uma atitude estética pura? Creio que não. A minha atitude estética em relação àquilo a que Bell chama ‘forma significante’ está sempre, mesmo que inconscientemente, a estabelecer ligações com outras atitudes, com outras ideias, com outras formas. Nada está separado. Do mesmo modo, aquilo a que os autores chamam o desinteresse na contemplação estética (o interesse para lá de qualquer finalidade que não a da contemplação do objecto-em-si) está, ainda que de forma muito inconsciente, ligada a outros interesses. Quando olho para uma paisagem posso apreender sensivelmente um Rothko, quando contemplo um Rothko posso ser, sem que me aperceba disso, devolvido ao intenso azul do mar num dia de chuva. Não creio na existência de uma atitude estética pura, não creio na existência de alguma coisa chamada desinteresse na contemplação, a não ser que se lhe chame ‘absoluto interesse na coisa em si’.
CJ: As teorias hermenêuticas (Gadamer, Ricoeur, Habermas, entre outros) concordariam com o que diz. Poderia, no entanto, contra-argumentar dizendo o seguinte: quando temos a experiência da cor vermelha ela corresponde a um certo tipo de ondas da luz, da mesma forma que podemos detectar imensas significações simbólicas associadas (de todo o tipo, desde o sinal de alerta até ao símbolo político da Praça Vermelha). Podemo-nos, no entanto, perguntar: mesmo sabendo tudo isso, não podemos ter a experiência cromática por ela mesma e ter prazer nela? Será que a atitude legítima de suspeita (soupçon, na terminologia de Ricoeur) deve-nos impedir o valor e interesse de uma contemplação por ela mesma, i.e. desinteressada em tudo o resto?
CJ: Nietzsche foi durante a sua juventude discípulo de Schopenhauer. A sua obra sobre o Nascimento da Tragédia - provavelmente a sua obra mais lida e discutida - é claramente marcada pela influência do seu mestre. Com efeito, esta obra estabelece a necessidade de uma articulação entre aquilo que Nietzsche chama de "dionisíaco" e "apolíneo" para se poder entender a tragédia como forma de arte. Ora, o "dionisíaco" é a reinterpretação nietzschiana do "mundo como vontade" e o "apolíneo" traduz o "mundo como representação". No entanto, como é sabido, Nietzsche rompe com o pensamento schopenhauriano porque considera que este último está eivado de um niilismo negativo. A vontade que nada quer é, para Nietzsche, uma vontade que quer o nada e, como tal, a morte. Para evitar este niilismo negativo propõe um niilismo positivo, criador, assente na ideia de vontade de poder. Para esta última, a eterna repetição das coisas - nada de novo sob o sol, como diz o texto bíblico - não deve ser vista como uma maldição, mas como a oportunidade de assumir com alegria o nosso destino, por mais trágico que ele seja.
Pedro: Quanto à atitude desinteressada. Não consigo concordar com esta ideia do “desinteresse”. Refere Stolnitz (no seguimento de Shaftesbury e Kant): «[desinteresse:] significa que não olhamos para o objecto preocupados com qualquer fim ulterior para que possa servir. Não estamos a
tentar usar ou manipular o objecto. Não há outro fim a dirigir a experiência, além do fim que é ter a experiência. O nosso interesse repousa tão-só no objecto» (49). Ora, apesar de perceber o que o autor quer dizer, parece-me – talvez por insensatez ou ignorância da minha parte – que a sua
afirmação não faz sentido. Julgo que não há qualquer desinteresse na atitude estética, mas que, muito pelo contrário, é ela a mais interessada das atitudes. O objecto artístico não é apenas “interessente”; a minha atitude em relação a ele é a de maior interesse. Eu tenho uma atitude de interesse para com o próprio objecto. O objecto é o fim em si mesmo. Ele tem um propósito: o propósito de ser visto/contemplado em si mesmo. Quando Stolnitz diz: «o nosso interesse repousa tão-só no objecto» (49), o advérbio ‘tão-só’ é aí colocado (parece-me que – e desculpe-me a ousadia – desacertadamente) pela pena do autor. Quero com isto dizer que não pode haver aí um ‘tão-só’, mas, sim, um ‘inteiramente’, um ‘absolutamente’. Dever-se-ia dizer: «o nosso interesse repousa INTEIRAMENTE no objecto». Devolvendo a palavra a Stolnitz: «‘desinteressadas’ é muito distinto de serem ‘não-interessadas’» (50). Porém, ou muito me engano, ou em língua portuguesa, pelo menos, estabelece-se nitidamente entre ‘desinteressadas’ e ‘não-interessadas’ uma relação de sinonímia: «Desinteressado: 1. Que perdeu o gosto, o amor ou o entusiasmo por alguém ou por alguma coisa; 2. Que denota falta de empenho, de interesse; que não tem interesse… etc.». Será
que no original, os termos usados não têm uma feliz equivalência em português, ou a imprecisão não é, de todo, do tradutor mas do autor? Assim, se for esse o caso, parece que o ‘desinteresse’ em Stolnitz (ou em Kant) quer, na verdade, dizer ‘interesse absoluto’ (tal como a ‘repetição’ em Deleuze significa, afinal, ‘diferença’, tal como ‘eterno retorno’ em Nietzsche significa, afinal, ‘selecção, diferença, afirmação do devir’, ou seja, o exacto contrário do que significam no seu uso corrente). Diz Stolnitz: «Não estamos a tentar usar ou manipular o objecto. Não há outro fim a dirigir a experiência, além do fim que é ter a experiência». Ora, se o autor pretende afirmar que o desinteresse se prende com a não-utilidade, pergunto: quem pode afirmar que a contemplação estética não é útil? E, recorrendo a um exemplo do próprio Stolnitz: «É apenas a utilidade-caneta-para-escrever da caneta, e não a sua cor ou forma características, que me interessa» (47). Pois bem, aí, apesar de eu ter uma atitude interessada para com o objecto escriturário, não estou interessado
na caneta-objecto-em-si, mas TÃO-SÓ na caneta-para-escrever; logo, e,
precisamente, ao contrário do que quer fazer parecer Stolnitz, a minha atitude para com a caneta-objecto-em-si é de desinteresse e há, aí, portanto, nesse sentido, uma atitude desinteressada: qualquer caneta me serviria. Inversamente, se a mesma caneta fosse exposta num museu, por um Duchamp, por exemplo, a minha atitude para com a caneta-para-escrever seria de completo desinteresse e, contudo, a minha atitude para com a caneta-objecto-artístico-em-si seria de absoluto interesse (este exemplo talvez não seja o melhor, já que os problemas da arte conceptual nos
levariam a interrogações mais complexas, mas fiquemo-nos pela caneta-enquanto-caneta e ignoremo-las aqui). Ou seja, não se trata de haver desinteresse num caso e interesse no outro – não se trata, de todo, de tentar inverter a proposição do autor (numa formulação do género: «atitude
desinteressada seria olhar para a ‘Fonte’ e ver, apenas, um urinol de pernas para o ar») –, mas de haver interesse e desinteresse em ambos os casos, sendo que o interesse muda o seu ‘objecto’ mediante a situação: ora se dirigindo para a caneta-em-si, ora para a caneta-para-escrever. Mais: a
atitude estética é a mais interessada atitude, já que, no museu, eu dirijo uma atitude interessada, como nunca antes, para a própria caneta. Não tem ela utilidade? Permita-me: parece-me que não tem ela outra coisa que não seja utilidade: uma “utilidade estética” (ou será esta expressão uma
aberração conceptual?). Nunca aquela caneta, e apenas aquela, na sua singularidade, foi tão útil ao meu interesse, foi tão útil à minha atitude estética, foi tão útil à minha sensibilidade, foi tão útil… Stolnitz: «O nosso interesse repousa tão-só no objecto, de modo que ele não é considerado um sinal de um acontecimento futuro». Creio sinceramente que Stolnitz (Shaftesbury ou Kant) não teria escrito sobre a “atitude desinteressada”, se não se tivesse demorado na contemplação estética
(interessada, absolutamente interessada) da arte de então. Não foi ela inteiramente útil à sua produção textual posterior? É possível separar uma coisa da outra, mesmo que no exacto momento da contemplação estética não se estivesse a pensar nas formulações teóricas futuras? Parece-me que não. Mesmo que eu contemple um objecto pelo que ele é em si, sem, digamos, “segundas intenções”, ele é alvo de todo o interesse, é, aliás, alvo de uma “primeira intenção” e, portanto, mais interessada. Eterno círculo. Trata-se, aqui, talvez, mais precisamente, de um meta-interesse, de um
interesse no próprio interesse que a contemplação estética proporciona.
CJ: A categoria do "desinteresse" é inegavelmente a mais central na teoria estética. Como diz, está presente em Shaftesbury, em Kant, mas, também em Schopenhauer, Clive Bell, Stolnitz, e tantos outros. Só que tem significados diferenciados consoante os autores considerados. O próprio Stolnitz tem um artigo sobre esta questão que, se eu tiver possibilidade, colocarei neste blogue para vocês lerem. Num dos slides da apresentação, citado aliás na sua questão, o slide 13, Stolnitz acrescenta algo ao que referiu. Vou pôr a citação em inglês: "It should, then be clear that being 'disinterested' is very far from being 'un-interested.' Rather, as all of us know, we can become intensely absorbed in a book or a moving picture, so that we become more 'interested' than we usually are in the course of our 'practical' activity." [sublinhado meu](35-36). Logo, há um "interesse" associado à experiência estética que é muito maior do que o interesse usual pelos objectos da nossa vida prática. E esse interesse deriva do facto de querermos ter aquela experiência por ela mesma, independentemente das consequências futuras ou ulteriores na nossa vida (como, por ex. usar a experiência estética para potenciar a nossa sensibilidade). Como vimos numa das aulas presenciais, o "desinteresse" significa assumir o valor intrínseco de algo, i.e. não ser realizado tendo em visto outras finalidades (mesmo que elas venham a ocorrer).
Vou fazer uma analogia com as cores. Vamos imaginar que se gosta de um certo tipo de vermelho. Sabemos que essa cor na natureza habitualmente significa perigo e risco. No entanto, apesar de ela me alertar para o perigo, eu posso estar apenas interessado em apreciá-la *qualitativamente*. A experiência daquela cor é-me suficiente, estou totalmente interessado nela que não tenho nenhum outro interesse. Mesmo que estes outros interesses ocorram, eles são-me irrelevantes.
Convém sublinhar dois pontos importantes: (1) Stolnitz não transforma a atitude estética no critério de identificação de uma obra de arte. Está apenas interessado em descrever o que é a atitude estética, tendo mais tarde sustentado uma teoria plural na análise das diferentes obras de arte; (2) nem todas as teorias de arte aceitam o critério estético do "desinteresse" como é o caso das teorias institucionais da arte, das teorias hermenêuticas, e da visão peculiar de Arnold Berleant sobre a estética da paisagem.
Pedro: O que me leva a uma outra questão: pode haver alguma coisa como uma atitude estética pura? Creio que não. A minha atitude estética em relação àquilo a que Bell chama ‘forma significante’ está sempre, mesmo que inconscientemente, a estabelecer ligações com outras atitudes, com outras ideias, com outras formas. Nada está separado. Do mesmo modo, aquilo a que os autores chamam o desinteresse na contemplação estética (o interesse para lá de qualquer finalidade que não a da contemplação do objecto-em-si) está, ainda que de forma muito inconsciente, ligada a outros interesses. Quando olho para uma paisagem posso apreender sensivelmente um Rothko, quando contemplo um Rothko posso ser, sem que me aperceba disso, devolvido ao intenso azul do mar num dia de chuva. Não creio na existência de uma atitude estética pura, não creio na existência de alguma coisa chamada desinteresse na contemplação, a não ser que se lhe chame ‘absoluto interesse na coisa em si’.
CJ: As teorias hermenêuticas (Gadamer, Ricoeur, Habermas, entre outros) concordariam com o que diz. Poderia, no entanto, contra-argumentar dizendo o seguinte: quando temos a experiência da cor vermelha ela corresponde a um certo tipo de ondas da luz, da mesma forma que podemos detectar imensas significações simbólicas associadas (de todo o tipo, desde o sinal de alerta até ao símbolo político da Praça Vermelha). Podemo-nos, no entanto, perguntar: mesmo sabendo tudo isso, não podemos ter a experiência cromática por ela mesma e ter prazer nela? Será que a atitude legítima de suspeita (soupçon, na terminologia de Ricoeur) deve-nos impedir o valor e interesse de uma contemplação por ela mesma, i.e. desinteressada em tudo o resto?
Comentários
Enviar um comentário